Do outro lado da cidade
Em íntima relação com projetos anteriores da www.zexe.net em que se entregavam telefones celulares a grupos discriminados (tais como prostitutas, taxistas, ciganos ou portadores de necessidades especiais), para que narrassem suas próprias experiências e traçassem seus próprios mapas da cidade, nesse vídeo, tenta-se dar voz aos mensageiros da cidade de São Paulo, para que sejam capazes de criar um lugar numa cidade pensada para “o cidadão médio imaginário” onde não se tem lugar nem para as minorias nem para as dissidências. Da mesma forma, é uma oportunidade magnífica para a potenciação de uma cartografia pública, por meio da tecnologia móvel multimídia e a criação de um plano interativo da cidade supracitada.
Como explica o próprio Abad, os chamados motoboys constituem uma coletividade de 160.000 mensageiros sempre presentes nas ruas da metrópole. Os motoboys paulistas transportam de tudo: documentos, pizzas, dinheiro, peças de reposição, etc. e realizam também todo tipo de operações em bancos e escritórios; diz-se que inclusive transportam órgãos humanos entre hospitais. Deslocando-se sobre rodas, esse grupo presta serviços diários que os cidadãos necessitam executar, sem os quais a cidade não poderia funcionar normalmente. Não obstante, os imprescindíveis motoboys quase sempre são motivo de crítica por grande parte dos cidadãos e sobretudo pelos milhares de motoristas, taxistas e transportadores públicos e privados que diariamente se deslocam pela cidade. Circulam vertiginosamente em fileiras compridas de motocicletas pelos corredores perigosos que se formam entre os carros. Com freqüência, quebram retrovisores, sofrem e constituem-se motivos de muitos acidentes e dificultam o tráfico, de modo que são objeto de críticas dos cidadãos irritados, diariamente, pelos meios de comunicação. A remuneração do seu trabalho tem relação direta com a quantidade de entregas: quanto mais velozes forem, maior será o número de serviços e, portanto, melhores serão suas remunerações. Um recente estudo feito pela Prefeitura de São Paulo aponta uma média de 50 acidentes diários envolvendo esse grupo de profissionais, sendo que, diariamente, um deles também vem a falecer.
Quando vemos estas imagens, nos damos conta de que a cidade que eles percorrem e onde moram cada dia difere dos outros muitos setores da cidade. Os motoboys de São Paulo criam e recriam seus próprios rincões, possuem uma memória urbana própria e habitam seus próprios itinerários. Alguns percursos que, muitas vezes, são impraticáveis para outros indivíduos e que permanecem invisíveis para a grande maioria das pessoas. A cidade deles é mais uma dessas cidades múltiplas ocultas que convivem junto com a maioria e que, por outro lado, muito poucos conhecem e nem sequer conhecem. É mais uma dessas cidades desprezadas e esquecidas, que até parecem precisar inclusive de memória. Por isto, é tão importante vê-los e escutar seus problemas e desejos, conhecer seus percalços e dúvidas, entender seus medos e carências. A vida deles é cheia e eles passam na rua, umas ruas ruidosas e repletas de veículos, onde permanecem infinitas horas de cada dia e parece que vivem ocupados. A rua é quase tão importante quanto a casa deles: amizades, comidas, acidentes e mortes; tudo acontece nas ruas. É como um espaço de vida coletiva em contínuo movimento em que ocorre um grande número de situações imprevisíveis e instantâneas, que constituem sua existência cotidiana. Uma existência feita de uma atividade permanente e que se torna hegemônica pela presença de alguns corpos que habitam e compartilham espaços públicos confusos complexos, onde tudo é possível.
José Miguel G. Cortés
Cartografías disidentes, exposição itinerante y publicaão da Seacex 2008

Do outro lado da cidade
2008 DVD 18" V.O. Português Subt. English-Español
Glòria Martí/Antoni Abad
Desde março de 2007 um grupo de 12 motoboys de São Paulo documentam suas experiências diárias na Internet através de telefones celulares com câmera integrada. Descrevem mediante palavras chave cada foto , áudio e vídeos que publicam, contribuindo assim para a criação de uma base de dados multimídias que relacionam estas descrições, propondo uma cartografia conceitual de conhecimento coletivo. O Documentário propõe uma interpretação a partir dos conteúdos multimídia associados aos seguintes tags, alguns dos mais utilizados até dezembro de 2007, como: acidente, corredor, chuva, dia-a-dia, estacionamento, moto, motoboy, perigo, trabalho, transito.

Cartografías disidentes, exposição itinerante y publicação da Seacex 2008
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