A revolução cultural dos motoboys
Um evento em São Paulo, um site inusitado e dois filmes ajudam a revelar a vida e cultura destes personagens de nossas metrópoles. Sempre oprimidos, por vezes violentos, eles vivem quase todos na periferia, são a própria metáfora do caos urbano e estão construindo uma cultura peculiar

Termina neste sábado, 17 de maio, a 1ª Semana de Cultura Motoboy. O evento começou na última segunda-feira, no CCPC — Centro Cultural Popular da Consolação — e conta com uma programação com muita música, intervenções, mostra de filmes e oficinas, entre outras atrações. Durante a semana, as atividades rolaram sempre à noite. No sábado, tudo começará de tarde, com workshops e show de encerramento a partir 20h, varando a noite.

A realização desse evento é tão surpreendente quanto oportuna. Fomos habituados a ver os motoboys apenas como um bando de malucos que desafiam as leis da física e os limites do próprio corpo nos estreitos corredores das avenidas da metrópole. E a maioria da população, sobretudo os motoristas, nutrem uma antipatia em relação a esses mensageiros de motocicleta. Para muitos, é difícil ver o ser humano que está por trás do capacete. Por outro lado, é um fenômeno tão recente, que os esteriótipos são compreensíveis, em função da falta de informação e reflexão sobre o perfil desse tipo de profissional. É chegada a hora de darmos atenção ao que eles pensam e desejam. Eles, que arriscam a vida diariamente para atender à pressa que temos para entregar documentos, comer pizzas, tomar remédios, entregar flores, receber o jornal — ou seja, socorrer-nos na maluquice que virou a vida nos centros urbanos, em especial São Paulo.

O aumento exponencial dos motoboys, causa perplexidade. Nos últimos dez anos, saltaram de cerca de 50 mil para um número estimado de 300 mil, só em Sampa. Embora não haja estatísticas seguras, estimativas apontam um número que pode chegar a 500 mil, em toda a região metropolitana. Quanto mais inviável o trânsito, maior a demanda pelo tipo de serviço que esse profissional realiza. É uma categoria que surge em função do caos provocado pelos congestionamentos. No ritmo em que a indústria automobilística vem produzindo, a perspectiva é de que teremos mais e mais motoboys pela cidade. Sem que percebamos, estamos cada vez mais reféns desses mensageiros. Há quem diga que uma greve de motoboys causaria mais prejuízo a São Paulo do que uma greve de ônibus.

Vivendo nos corredores das grandes cidades, os motoboys são a tradução explícita da alegoria de Brecht: um rio cuja violência das águas é produto da opressão das margens que o comprimem
Mas existe uma cultura motoboy? Pensando a cultura como a construção simbólica de uma coletividade, cuja expressão revela sua identidade, comecei a refletir sobre essa questão. E é intrigante analisar o que é afirmação de identidade para este grupo. Conversando com alguns deles, sobretudo os mais antigos, percebi que há uma rejeição ao próprio nome. A definição motoboy popularizou-se em virtude do caso do Maníaco do Parque, um bandido que, em meados da década de 1990, passando-se por fotógrafo de agência de modelos, atraía jovens garotas para a densa mata do Parque do Estado e ali estuprava e matava suas vítimas. Esse caso causou uma indignação maior do que essa que assistimos hoje no caso Izabella Nardone. O nome motoboy, portanto, surgiu estigmatizado. E para piorar a situação, estatísticas policiais revelaram um grande aumento do número de assaltos praticados por ladrões com uso de motos, nos últimos anos .

Não é fácil a vida de motoboy e motogirl. Ralam em condições de trabalho para lá de precárias, insalubres e periculosas, para obter uma remuneração que vai de R$ 250 até, no máximo, R$ 1200 (casos raros) . Ainda têm que agüentar o preconceito .Os caras e minas têm uma jornada de trabalho que pode chegar a 16 horas, em três serviços diferentes. Alguns deles começam às 4 da madrugada, entregando jornal até as 7h. Depois, vem o expediente básico na agência de motoboys ou numa firma qualquer, até 18h. Cruzam a cidade e na periferia, onde a grande maioria mora, ainda complementam a renda entregando pizza, ali mesmo pelo pedaço.

Esse trampo noturno é dos mais ingratos. Normalmente, ganham uma diária de R$ 15,00 e mais R$ 1,00 por pizza entregue. Ou seja, se fizer 15 entregas numa noite, receberá R$ 30,00. Essa realidade e muitos outros dramas (e delícias, também) da vida desses profissionais estão no brilhante documentário Motoboys Vida Loca, de Caito Ortiz, uma produção de 2003, que foi premiada na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo naquele ano. O belo filme 12 Trabalhos, do cineasta Ricardo Elias (De Passagem), ajuda também a entender o coração que bate em baixo da jaqueta do motoboy. O filme conta a história do jovem Heracles que, saído da antiga Febem, tenta recomeçar sua vida trabalhando com moto-frete. Embora ficcional, a produção, de 2006, revela o perfil de um motoboy com enorme sensibilidade.

A cultura motoboy é um produto do contexto social em que vive esse profissional. Sendo esse contexto caótico, urgente e tenso por natureza, não há como essa cultura não expressar a paisagem urbana que lhe serve de cenário. O motoboy e a motogirl são a própria metáfora do caos urbano. São, ao mesmo tempo, heróis e bandidos numa cena onde o protagonista não é o ser humano, mas o veículo motorizado — seja o carro, moto, ônibus ou caminhão. São a expressão de um dos lados da luta fratricida pelo espaço público. Cada metro quadrado de asfalto é defendido por motoqueiros e motoristas como se dele dependessem suas vidas, seus destinos. Vivendo nessas artérias que são os corredores das grandes avenidas, os motoboys acabam sendo a tradução explícita da alegoria de Brecht: um rio cuja violência das águas é produto da opressão das margens que o comprimem.

Roupa, moto adesivada, solidariedade entre si e procedência periférica são elementos da cultura motoboy. Mas há algo menos evidente: a semântica. Eles e elas construíram uma linguagem própria
Contracenado nesse caos, o motoboy é parte dessa confusão, e sua afirmação enquanto grupo é carregada de contradições. Quem ele é fora do front? Ele leva para sua casa e comunidade toda essa adrenalina do dia-a-dia do trampo? O filme do Caito Ortiz é muito feliz ao desconstruir esteriótipos. Há uma motogirl de 44 anos, que pede para que o destino lhe reserve um acidente fatal. Assim, ela se livraria da dor que foi a perda do filho morto aos 18, a separação do marido e o afastamento da filha que resolveu casar e sumir. Ronaldo, outro personagem real do filme, contradiz a percepção que temos do motoboy. Empregado com carteira assinada e salário de R$ 1.200, ele tem 34 anos e não tem pressa. Faz o trampo na boa e no final dia chega na sua quebrada e é recebido em casa pela mulher e o casal de filhos. Já o Gavião, garoto de vinte e poucos anos é “cachorro loco” - denominação usada na periferia para aquele motoqueiro arrojado, ousado e que atrai a atenção das minas com suas loucuras ensaiadas. Ele adora ser motoboy porque gosta da adrenalina do trânsito. Parece um “sem destino”, um sujeito que não responde a ninguém que não seja ele próprio, ostentando a máxima segundo a qual, se morrer em cima da moto, “morre feliz”. Que nada. Mora com a mãe , que lhe prepara o café da manhã com carinho, reclama da roupa suja e das unhas mal cuidadas do filhinho e todos os dias reza para que ele possa “arrumar um emprego decente“.

A diversidade revelada pelo documentário Vida Loca, nos coloca a indagação. Teriam os motoboys, enquanto categoria, um sentimento de pertencimento que desse um conteúdo cultural a sua afirmação? Fiz essa pergunta ao Eliezer Munis, o Neka, um dos fundadores do canal*Motoboy, coletivo que organiza a Semana de Cultura Motoboy. Segundo ele, há vários elementos comuns que criam uma identidade. A roupa, a moto adesivada, a solidariedade entre eles, a procedência periférica e a classe social são alguns desses elementos. Mas Neka destaca outro aspecto muito interessante e talvez menos evidente: a semântica. O motoboy e a motogirl construíram uma linguagem própria.

Expressado quase totalmente pela oralidade, esse vocabulário agora pode ser lido pelas narrativas dos motoqueiros que integram o canal*Motoboy , na página (www.zexe.net/saopaulo) que mantém na Internet . São 10 motoqueiros que se juntaram por iniciativa do artista plástico catalão Antoni Abad no projeto artístico Motoboys Transmitem de Celulares, realizado durante três meses, no primeiro semestre de 2007, no Centro Cultural São Paulo (CCSP). Cada um deles recebeu um celular de alto padrão tecnológico com conexão à internet. Enviaram fotos e textos para o site, revelando sua percepção sobre a vida na cidade. Antoni desenvolveu experiências semelhantes com prostitutas em Madri, imigrantes nicaragüenses na Costa Rica e taxistas na Cidade do México. Está tudo lá, no mesmo site.

Lendo as narrativas, no site, nos surpreendemos com relatos do drama vivido pelos motoboys, mas também nos divertimos com a comunicação entre eles. São repórteres privilegiados
A realização desse trabalho teve o apoio do centro Cultural da Espanha. Durante e após o término da exposição no CCSP, o grupo atraiu diversos parceiros, entre eles a Cidade do Conhecimento, da USP, o Instituto Socioambiental (ISA) e a Ação Educativa. Vale a pena navegar pelo site. Lendo as narrativas, nos surpreendemos com relatos do drama vivido pelos motoboys, mas também nos divertimos com a comunicação entre eles. Percebemos uma preocupação com a cidade e nos chocamos com os acidentes que às vezes são noticiados. O motoboy é um repórter privilegiado. E essa produção rápida de notícia, feita por quem sabe bem o que é urgência, tendo um veículo midiático ao alcance, certamente está produzindo um indicador muito interessante e revelador do que pode ser a cultura motoboy.

A Semana de Cultura Motoboy e o canal*Motoboy estão dando uma contribuição enorme para entendermos a vida dessa gente tão batalhadora quanto estigmatizada. A capacidade de articulação do grupo tem produzido parcerias muito interessantes. A aproximação com o ISA vem possibilitando o engajamento do motoboy em questões ambientais urbanas das mais relevantes. Você sabia que um motoboy utiliza, em média, três litros de óleo por mês e que esse resíduo vai, na maioria dos casos, para o esgoto? Segundo o ISA, cada litro de óleo contamina 1 milhão de litros de água. Você pode imaginar 900 mil litros de óleo contaminando a água? Por outro lado, o contato com a Ação Educativa está pautando a questão do letramento entre os motoboys e suas dificuldades de leitura e escrita. A Cidade do Conhecimento está proporcionando capacitações em mídia digital. Ou seja, há um movimento em torno de um pequeno grupo de motoboys que pode produzir uma grande revolução na categoria.

Muitas outras iniciativas estão rolando e ainda dá tempo de tomar contato com o canal*Motoboy e participar de seu evento. Apareça nesse sábado no CCPC e você mudará seu conceito em relação ao motoboy.

Eleilson Leite 17/05/2008 Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique