Cultura Motoboy e Políticas Públicas: Interfaces da Cidade de São Paulo
Será que existe uma cultura motoboy? Qual a razão de vermos, nos últimos anos, várias produções culturais com essa temática? Estamos diante de um fenômeno social que ainda não foi totalmente interpretado? Filmes, peças de teatro, músicas, livros, personagens de novelas, documentários e, agora, uma exposição de arte? O que há de tão específico nessa nova classe de trabalhadores urbanos que faz deles sujeitos e protagonistas principais do cotidiano de nossas cidades? Hoje, não há como negar que os motoboys representam aspectos importantes do convívio social e compreendem, em parte, muitos de nossos problemas tanto em seu lugar privilegiado, o trânsito, como na implementação de políticas públicas para uma melhor qualidade de vida nos principais centros urbanos de nosso país. E isso significa que estamos diante de um novo poder. A intersecção entre cultura e política tornou-se mais clara quando realizamos, entre maio e junho de 2007, um Ciclo de Debates e Filmes como parte da exposição “Motoboys Transmitem de Celulares”, de Antoni Abad, nos 25 anos do Centro Cultural de São Paulo.

Mas de que maneira compreender o lugar desses personagens e em qual cenário eles se movem para que possamos considerá-los protagonistas em primeiro grau de soluções complexas sobre as quais toda a sociedade deverá se debruçar para pensá-las? Não apenas cuidar de um novo tratamento geométrico das ruas e avenidas definiria o conflito nos espaços urbanos a partir da lógica da mobilidade dos motociclistas. Trata-se, antes de tudo, de compreender qual o nível de informação que esses sujeitos, os mensageiros, trazem e de que forma desempenham suas funções para que a própria cidade possa evoluir. O próprio surgimento desses profissionais está intrinsecamente ligado às muitas transformações que a cidade sofreu com o processo de urbanização - e estrangulamento das vias - por parte do excesso de veículos no contexto do rápido crescimento global. Esse crescimento impõe à sociedade como um todo que providências concretas de melhoria sejam tomadas. Trata-se sempre de compreender de que modo a vida dessas pessoas ( trabalhadores, pais de família, jovens e, muitas vezes, moradores das grandes periferias) que utilizam a motocicleta como meio de subsistência é afetada, de que maneira se organizam, como elaboram suas estratégias para realizarem suas tarefas, como criam sua própria identidade, ao aplicá-las no campo social. Assim, quando levamos em conta esse modo singular de viver, estamos diante daquilo a que chamamos de sua Cultura.

É imprescindível — e assim também foi para nós quando iniciamos o processo de curadoria para o projeto canal*MOTOBOY — que a voz do Profissional Motociclista seja ouvida. E que sua vida seja contada sem mediações e que até mesmo a própria alcunha “motoboy” por eles seja discutida a fim de criarem sua auto-representação. Eles se vêem e são vistos pela sociedade de diversas maneiras: como “motoqueiros”, “mensageiros”, “motoboys”, “motociclistas”, “deliverys”, “couriers”, até como “mototáxis” por conta da existência dessa função em outras regiões do Brasil. Mas surgiram também os degenerativos, como o mais conhecido “cachorro-louco”, etc. Em muito desses casos, as subsunções desses nomes escondem uma forma de depreciação do profissional, desqualificam-no em seu ambiente de trabalho a partir de algum estereótipo, quando não de forma a negar o próprio estereótipo, como foi a iniciativa dos órgãos de trânsito do município ao denominá-lo, através de uma tipologia que reunisse as características principais de seus serviços, “moto-frete”, dando-lhe um caráter de coisa, e não mais de sujeito.

Como lembram os analistas sociais, essas “reduções” encontram explicação na forma de como se determina o Outro, de modo que ele não alcance o seu próprio direito à participação igualitária na política ou em outras dimensões, como no seu trabalho ou outros espaços da vida social. Dessa forma, cria-se um tipo de identidade artificial na sociedade. Os próprios participantes dessa comunidade não se dão conta dos riscos que correm para se reconhecer e serem reconhecidos; para se fazer pertencer a um grupo social (“motoboys”, “cachorro louco”, etc), abrem mão da própria auto-estima. Essa é uma característica própria dos processos de estereotipia social, e com ela vem a imagem negativa que passa a ter um estigma em relação a si própria e ao conjunto da sociedade - e essa doença não se combate sem informação e consciência de classe. De fato, é somente através do embate cultural que essa comunidade será capaz de construir uma identidade positiva em relação a sua representação social e talvez, como resposta, encontrar o próprio significado de sua expressão, o que, sem sombra de dúvida, refletirá em todos os âmbitos de sua vida diária, seja no campo da política, da economia, no seu trabalho, no lazer ou em família. Nesse sentido, proporcionar o encontro entre a política e a cultura já fazia parte no processo quando o artista Antoni Abad cria pela primeira vez na história dessa Categoria Profissional uma oportunidade de reunir um grupo de 12 “motoboys”, organizando, através de um projeto cultural, uma forma de sociabilidade antes impossível para esse grupo. Reunindo-os semanalmente, durante meses, para discutirem seus principais problemas e capacitando-os com uma tecnologia celular ligada à internet, o que permitiria que sua voz instantânea fosse ouvida por toda a sua comunidade, vimos manifestar-se um expressivo conjunto de códigos e sinais que podem significar uma mudança substancial não só em relação à identidade desses profissionais pertencentes a uma coletividade, como em relação à visão de mundo (Weltanchaung) que então constroem a partir dessa experiência. Mais do que criar um conjunto de imagens e intervenções digitais no mundo virtual da internet, há a possibilidade de se realizar uma mudança estrutural à medida que os diálogos entre essa categoria profissional e a sociedade alargam suas fronteiras a olhos vistos. Houve, então, um interesse por parte de um conjunto de pesquisadores universitários e das instituições às quais pertencem pelos problemas dos motociclistas e sua luta para se organizarem. Esse grupo os ajudou no desenvolvimento das questões levantadas pelo canal*MOTOBOY e constatou, pela experiência de auto-representação desses profissionais, um dinamismo próprio surgir a partir de uma forma de sociabilidade que emerge com o aporte das redes sociais digitais, seja pela possibilidade desses encontros e debates idealizados pelo Projeto, seja, sobretudo, por seus envios para o site www.zexe.net/SAOPAULO.

Provando que tal dispositivo é capaz de gerar opinião pública, esses Profissionais Motociclistas fizeram, em apenas quatro meses, cerca de 2.800 envios entre fotos, vídeos e sons gravados. Nesses envios, pudemos contar mais de 240 entrevistas com outros profissionais e pessoas envolvidas em seu dia a dia utilizando a palavra-chave “FALA”. Motivados por temas trazidos pelo próprio grupo, com palavras-chave como “DIA A DIA”, “TRÂNSITO”, “ACIDENTE”, “TRABALHO”, “FAMÍLIA”, “REUNIÃO”, entre outras, eles indicaram claramente que, ao participarem desse projeto, com publicação pela internet em tempo real, converteram-se não só em emissores do canal, como também em usuários ativos de um dispositivo de comunicação autônomo e independente e se transformaram em cronistas de sua realidade. Como era do desejo deles. Fugiram, assim, à lógica dos estereótipos projetados pela mídia e pelos meios de comunicação preponderantes e criaram, também, uma ferramenta espetacular de luta para reinventar seu próprio cotidiano.

Entre outros fatores, podemos perceber que eles trouxeram um espaço legítimo de formação para a vida cultural da cidade. Basta, para isso, captar as imagens em que eles se põem a discutir, de forma colaborativa, tanto os conteúdos do site como, até mesmo, o destino do canal*MOTOBOY. Vemos surgir uma cidade que se mostra pelo ângulo dos motociclistas; quando nos abrimos a uma dimensão mais estética, notamos que as câmeras fotográficas começam primeiro a revelar o olhar e, assim, tornam-se instrumentos simbólicos para investigação dessa experiência: o olhar do motoboy evidencia o “olhar” para esse motoboy.

Portanto, ao engendrarem suas demandas levando em conta o nível de complexidade com que precisam lidar para a resolução de seus problemas — hoje há um consenso de que as soluções também deverão ser complexas, e para isso basta lembrar dos dados oficiais sobre os elevados índices de acidentes com vítimas fatais nos últimos anos —, chegamos à conclusão de que não há, até o momento, nenhuma garantia de que as iniciativas dos gestores públicos alcancem sucesso uma vez que, para isso, seria necessária uma verdadeira representação de classe acompanhando tais políticas.

Claro está que, se esses profissionais se ressentem da falta de um eficiente programa de prevenção de acidentes — com curso de direção preventiva e formação profissional —ainda que faltem pesquisas que associem acidente de motocicleta a acidente de trabalho, também é verdade que faltam, por parte do Poder Público, ações que apontem de que maneira os Profissionais Motociclistas criaram a melhor estratégia para ir de encontro aos interesses de sua cidadania e ao respeito pela vida humana. Aqui cabe uma observação sobre o modo quase tribal com que eles se defendem no trânsito, inclusive ajudando-se nos momentos trágicos dos acidentes. Sua voz não pode calar, pois só eles sabem do desamparo quando, no asfalto quente, aguardam chegar o carro dos Bombeiros. E que tudo isso passe pela onisciência dessa escuta.

Assim, na urgência de se abrir um diálogo protagonizado pelo coletivo de motoboys entre o poder público e a sociedade civil organizada, o claro objetivo de nossa curadoria é o de preencher um hiato — graças à execução do projeto www.zexe.net/SAOPAULO — ao fazer entrarem na agenda política da cidade de São Paulo, para as próximas eleições municipais, as reivindicações dessa categoria de motociclistas.

Sentimos, assim, um lastro de vontade e compreensão de todos os envolvidos nesse Projeto e de todas nossas parcerias construídas a partir desses debates. Quando vemos na necessidade de se fazer justiça a esses motociclistas que põem em risco a própria vida uma razão de ser, encontramos, enfim, um significado para a arte que eleva sobretudo o discurso sobre a qualidade de vida na cidade e coloca, através da cultura, a cidadania em primeiro lugar.

Eliezer Muniz dos Santos
Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo e ex-motoboy.

portada y contraportada del libro canal*MOTOBOY

canal*MOTOBOY
Alberto López Cuenca, Eliezer Muniz, Augusto Stiel, Vinicius Spricigo
Centro Cultural de España en São Paulo 2007
Português-Español
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