Novos cronistas, novas narrativas
O âmbito das práticas artísticas contemporâneas tem vindo a conhecer uma progressiva expansão, tanto pela redefinição recorrente do estatuto da obra de arte, como também pelo constante questionamento do modo e do contexto em que esta se apresenta. Aquilo que Antoni Abad tem vindo a propor ao longo destes últimos anos é uma forma radicalmente diferente de responder a estes quesitos. Tirando proveito de novos mecanismos de distribuição de informação, como sejam a internet e os telefones portáteis multimédia, este autor criou um sistema de mediação do real protagonizado por diferentes grupos em diferentes contextos. Ou seja, os vários canais que entretanto foram criados – taxistas no México, ciganos ou prostitutas em Espanha –, são nódulos de comunicação cuja edição é assumida pelos próprios criadores de conteúdos num universo onde a sua voz é tendencialmente negligenciada ou por e simplesmente ignorada.
Se muitos dos projectos que se proclamam socialmente empenhados caem, no campo das artes visuais, numa espécie de autismo denunciatório, Abad reconfigura o modo das plataformas artísticas se imiscuírem num universo comunicacional que ultrapassa largamente a audiência previsível do formato tradicional das exposições de arte contemporânea. Assim, a alternativa que propõe à figura de um autor com uma linguagem própria, é a de um mediador de linguagens outras que cria as condições para que essas linguagens se façam ouvir num contexto que está, na sua estrutura de partida, vinculado ao “mundo da arte”. Trata-se, então, de um desvio consciente e consentido de meios, recursos e oportunidades produtivas do universo estrito das artes plásticas – que de facto, cada vez importa menos a este artista –, para um universo onde se pode efectivamente detectar uma alternativa às narrativas comunicacionais de transmissão do real (dominadas, hoje, como se sabe, por formatos hiper-estruturados como sejam as notícias ou as reportagens veiculadas nos mass-media).
A proposta que aqui se apresenta, o canal*ACCESSIBLE, corporiza, como nos explica o autor, “un espacio de cartografía pública digital, donde emisores y usuarios experimentan un uso social de las redes telemáticas”. A visibilidade das dificuldades encontradas pelos descapacitados na sua vivência urbana encontrará no espaço de exposição do CASM uma actualização permanente, mediante uma interacção com a capacidade dos emissores produzirem conteúdos em tempo real. Deste modo, aquilo que normalmente se intui, se adivinha ou se imagina, vai ganhar uma dimensão absolutamente real e concreta. Como qualquer mapa, tratar-se-á de um instrumento. Saibam, agora, aproveitar a oportunidade para dele se servirem eficazmente e assim se provará que a partir da arte se podem estruturar narrativas que de facto tenham repercussão crítica e concreta sobre o real.
Miguel von Hafe Pérez, Centre d'Art Santa Mònica, Barcelona 2006

